Geni e o Zepelim | Projeto Redigir

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim e falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

-- Retirado de Dom Casmurro, livro de Machado de Assis.

Pensei em me desculpar pela falta de atenção, mas ele nem sequer olhava para mim, e eu não gosto de cutucar ninguém, ainda mais se for para me desculpar.
A viagem chegou ao fim, teríamos que percorrer o mesmo caminho, pois o trem não pararia mais. Notei pelos seus trajes e pelo modo de falar que o rapaz não era da região. Olhei os livros que carregava, pareciam os de um estudante de Direito. Tive vontade de saber de onde ele vinha.
Tossi três vezes, me remexi no banco, abri a sacola de plástico que eu carregava. Nada parecia poder distraí-lo de seu olhar pela janela.
De repente o cansaço que eu tinha no começo da conversa desapareceu. Tudo o que eu queria era saber sobre aquele rapaz: de onde vinha, por que tinha confiado a mim suas poesias... Mas era tarde demais, eu havia desperdiçado a oportunidade. Pouco tempo se passou até o trem parar na estação seguinte. Ele desceu. Não parecia uma decisão pensada -- eu tinha a impressão de que ele havia decidido naquele momento descer -- só porque eu não lhe dera a devida atenção. E a minha curiosidade só aumentava.
Pensei em descer na próxima estação para ir correndo atrás dele. Pra que, também? Não sou nenhum detetive! Mas o que será que ele trazia embaixo do braço? Sim, além das poesias ele tinha um envelope amarelo, na verdade um pacote retangular. Isso não sai da minha cabeça! Acho que vou saltar. Não, por quê? Que mania eu tenho de me meter na vida dos outros! É melhor eu permanecer sentado aqui e ir pensando no que eu vou fazer para agradar a Coitinha quando chegar na casa dela.
Mas fiquei inquieto de curiosidade, quis pegar o trem de novo e no mesmo horário. Então descobri o que era. Lá estava ele. Só que vestido de mulher e então ele me falou que no pacote estava a inscrição para o concurso de Miss Drag Queen 2004. Perdi o chão, senti minhas pernas tremerem, minha mão suar e a respiração ficou ofegante. Então pensei que aquilo não poderia estar acontecendo.
Contudo, era tão real e agora tinha certeza que o menino era da região. Saquei a arma e matei-o. Graças a Deus. Se não tivesse feito todos, agora, poderiam saber que sou, também, uma drag.




O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões* surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, na há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem**, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação do automóvel, ou engarrafamento, se quisermos usar o termo corrente.
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* peões: pedestres (português de Portugal)
** embraiagem: embreagem


-- Retirado de Ensaio sobre a cegueira, livro de José Saramago.

Tinha ainda uma senhora com uma criança nos braços e outra puxando suas saias. Ela não sabia se ia atravessar ou permanecer do lado direito da passarela. Que trânsito infernal! O barulho é demais! Ao longe, avisto um vendedor de paçoquinhas. Quando os carros parassem novamente, ao fechar do semáforo, ele sairia, a correr, entre os automóveis, a oferecer seu produto.
Mas um dos carros não parou atropelando o paçoqueiro e a idosa. O bebê, por sorte, caiu dentro do cesto de paçoca. O motorista descontrolado fugiu, ninguém pôde anotar a placa. Os que passavam correram para socorrê-los. "Bendita paçoca", gritou um homem ao recolher a criança. Já a velhinha, não teve a mesma sorte, foi arremessada dentro de um caminhão de lixo.
O transtorno foi grande, muitos comentários, até chegar à televisão. Aí virou farra, todo mundo queria aparecer na TV. Junto veio o resgate e deu assistência à velha. O bebê não sofreu nem um arranhão.
-- Benditas sejam as paçocas do paçoqueiro! -- gritou um senhor que acabara de chegar ao local e se deparou com o bebê que nem chorava.
A notícia saiu até em jornais. Pobre da velha, se ao menos o caminhão estivesse cheio de lixo, ela não teria morrido.
O fato ainda rendeu três dias de noticiário: o coma da velha, a saga dos homens que foram resgatá-la e, o mais importante, o perfil do paçoqueiro. Sua enfadonha história de vida rendeu-lhe algumas folhas de jornal, expostas mais tarde na parede da sala. Por um momento, pensou que era o fim de sua vida de vendedor.
Mas outros motoristas também tinham pressa e, para sua máxima irritação, as cores do sinal demoravam para mudar. Os demais ambulantes -- entregadores de anúncios de apartamento, vendedores de recarregadores de celular, de Suflair, os atletas vendedores de balinha e flanela -- nem se intimidaram com o acidente. Continuaram passeando lépidos por entre os carros -- porque é necessário ganhar a vida, enquanto ela ainda existe.




Ele era um velho que pescava sozinho em seu barco, na Gulf Stream. Havia oitenta e quatro dias que não apanhava nenhum peixe. Nos primeiros quarenta, levara em sua companhia um garoto para auxiliá-lo. Depois disso, os pais do garoto, convencidos de que o velho se tornara salao, isto é, um azarento da pior espécie, puseram o filho para trabalhar noutro barco, que trouxera três bons peixes em apenas uma semana. O garoto ficava triste ao ver o velho regressar todos os dias com a embarcação vazia e ia sempre ajudá-lo a carregar os rolos de linha, ou o gancho e o arpão, ou ainda a vela que estava enrolada à volta do mastro. A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente.

-- Retirado de O velho e o mar, livro de Ernest Hemingway.

O garoto continuava trazendo muitos peixes, enquanto o velho retornava de mãos vazias. Todos do cais atribuíam a ele grande azar.
Mas o velho com sua persistência acreditava a cada dia na possibilidade de conseguir muitos peixes e de boa qualidade.
Quando todos já tinham voltado da pesca, era possível ver o homem, firme em seu barco. Ele inventava estratégias e planos, mas os peixes continuavam passando indiferentes à sua isca. O que parecia azar, obra do acaso, começou a se tornar para ele uma questão de honra. Foi quando viu um lambari nadando sem rumo, perdido do cardume.
O velho saiu decidido atrás do lambari. Ignorava sua idade avançada, a mudança das correntezas com o cair da tarde, a falta de iluminação... "É fácil um lambarizinho desses enganar um principiante, mas não a mim." Tão obstinado estava o velho em conseguir alcançar sua presa, que não notou as nuvens se fecharem sobre seu frágil barco, e o mar -- que ele tanto conhecia -- puxá-lo cada vez mais para dentro de si.
Ah, o mar. Traiçoeiro mar! O lambari avista seu cardume e nada para junto dele. O velho por sua vez tenta jogar sua flecha para matá-lo, mas erra. Nessa tentativa, os seus remos caem a água. Agora, ele dá-se conta do grande perigo que corre. As nuvens ficam cada vez mais escuras, o sol já se escondera no horizonte, e o velho começa a chorar. Como se isso o salvasse! Mas que merda é a vida desse pobre ser. Vai passar fome, vai passar frio. Já é noite agora. O mar está gelado. Gaivotas voam alto e cantam em coros que o deixam a lamentar sua desgraça.
Seu zíper estava aberto e uma das gaivotas veio em sua direção.
Ele ficou estático
Então o pássaro mordeu sua genitália e a arrancou. Quando a gaivota ia subir, ele conseguiu dar um murro na ave, que caiu na água junto com o órgão.
Então um cardume apareceu de repente e começou a brigar pela nova minhoca.




Só agora Amaro acredita que a primavera chegou: de sua janela vê Clarissa a brincar sob os pessegueiros floridos. As glicínias roxas espiam por cima do muro que separa o pátio da pensão do pátio da casa vizinha. O menino doente está na sua cadeira de rodas; o sol lhe ilumina o rosto pálido, atirando-lhe sobre os cabelos um polvilho de ouro. Um avião cruza o céu, roncando -- asas coruscantes* contra o céu nítido.
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* coruscantes: fulgurantes, luzidias

-- Retirado de Clarissa, livro de Érico Veríssimo.

O menino, que era apaixonado por Clarissa, logo se imaginava fazendo um piquenique no jardim do lago, comendo farofa com frango. Mas Clarissa lhe parecia impossível. Amaro não quer privá-la da liberdade.
E fica a admirá-la, esperando que um dia destes ela venha conversar com ele e compartilhar segredos, medos e mistérios.
"Mas Clarissa tem muitos amigos", pensa Amaro, "e eu não conheço ninguém".
Ele viera com a mãe para e cidade tentar um tratamento. Mas as coisas só pioraram e Amaro ficou tão frágil que não podia sair da pensão. Dona Amália trazia-lhe as refeições, e esse era o único contato que ele estabelecia até a mãe voltar do trabalho.
Mas havia Clarissa. Ela também passava as tardes sozinha. Amaro a observava conversando com suas bonecas. De vez em quando, ela soltava uma risada barulhenta.
Uma vez por semana, a mãe de Amaro o levava ao Posto Médico para submetê-lo a uma sessão de fisioterapia. Amaro costumava sentir muita dor nessas sessões, mas fingia, agüentava firme. No fundo, tinha noção da gravidade da sua doença, mas não queria dar brecha para a fisioterapeuta preocupar sua mãe. Neste dia, entretanto, Amaro não pôde conter um grito de dor extrema enquanto a fisioterapeuta dobrava-lhe a perna direita. A moça parou o procedimento na mesma hora e puxou a mãe de Amaro -- cujos olhos tentavam fugir das órbitas -- para dentro de uma salinha.
A partir daquele dia, Amaro soube que não teria muito tempo mais de vida, e decidiu que faria de tudo para fazer de seus últimos dias os melhores. Ao sair da clínica aquele dia, procurou saber sobre a menina de seus olhos, Clarissa.
-- Ela está na beira do rio, lá em frente ao bar do seu tio João Puro -- disse a mãe de Clarissa.
Com o pensamento positivo demais, ele decidiu ir atrás da garota. Chegando à margem, vê do outro lado a menina nua nadando e tendo a seu lado um outro menino da vizinhança. Eles se encontram, num abraço de infância. Nisso, Amaro pensa: "a vida não presta".
Com isto, acelera o mais que pode suas pernas de rodas de encontro ao rio. E se joga até desaparecer por completo nas águas verdes, barrentas.

Lembremo-nos: Não nos jogaremos no rio por não alcançarmos nossos objetivos sem reconhecermos nosso potencial para buscarmos o que será de grande valia para nós.




Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

-- Retirado de Restos de Carnaval, conto de Clarice Lispector.

Desde pequena, sempre me encantei pelas festas de rua. Meu pai me punha nos ombros, e saíamos para ver o movimento da praça. Mamãe ficava preocupada:
-- Cuidado com a criança, Jorge!
Mas meu pai sabia o que estava fazendo, incitando dentro de mim aquela que seria a maior foliã que aquela cidade já teve.
Eu não me preocupava com o que os outros iriam falar sobre mim, só queria diversão. Lembro-me como se fosse ontem, eu tinha um shorts amarelo, uma camiseta regata vermelha com listras azuis, tinha um tênis conga azul com sola de borracha preta. Usava-se muito meias brancas com shorts. Essa era eu, olhos azuis, cabelos até os ombros, carregando uma dúzia de balões coloridos. Pena que neste dia meu óculos caiu no chão.
No alvoroço, pisaram nele. E, neste momento, estava caminhando com meu pai, quando tropecei e enfiei a cara no sorvete que tomava. E, como se não bastasse, meu pai escorregou numa casca de banana e, para não cair, agarrou-se a um daqueles que ficam andando com pernas de pau que, por sua vez, caiu sobre um trio elétrico, derrubando todos os artistas que estavam cantando e dançando.
O desastre foi grande, mas, como ninguém se machucou, a festa continuou. Engraçado foi o perna-de-pau, que não conseguia se levantar. Muitos ajudavam, mas ele parecia não estar muito a fim de erguer-se.
Adoro lembrar de cada episódio, pois festas têm para mim um quê de diversão sadia, na qual todos se embalam, fazendo a folia.
Pena que só durava quatro dias. Depois, o resto do ano se fazia dos dias na escola e das intermináveis tardes passadas lá em casa. Mas sempre havia a expectativa do carnaval do ano seguinte. E até hoje é o que me impede de desistir dos outros 361 dias de escritório.




Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
-- Retirado de Uma vela para Dario, conto de Dalton Trevisan.

Agora, sim, estava seguro. Respirava aliviado pelo fim da correria, mas seu rosto mantinha a expressão de alerta de segundos atrás. A cidade era grande, as pessoas tinham pressa e não entendiam que alguém se achasse assim tão satisfeito no chão ainda molhado.
Dario perdeu a noção do tempo. Ficou observando as pessoas que passavam apressadas, quase tropeçando nele. Há poucos minutos, ele era uma delas, mas... Para que tudo isso? Essa correria, essa ânsia toda. Passara a vida toda correndo -- em busca de quê? -- e ansiando -- o quê?
No auge de seus 45 anos, tudo o que Dario conseguia dizer de si mesmo é que era um homem insatisfeito. Via defeito em tudo. Não gostava de seus cabelos crespos e negros, odiava suas botas de couro, jamais iria aceitar ganhar ou comprar roupa branca. Adorava usar preto. De repente surge um pensamento em meio à tristeza que o dominava no momento: "O que eu estou fazendo aqui sentado?" Era Dario novamente buscando respostas à sua vida pacata até então.
A primeira resposta que ele queria saber era porque exatamente ele havia de sentar onde um cachorro tinha acabado de defecar. Agora além de triste estava revoltado. Levantou-se e chutou uma pedra no chão, só que essa pedra era um pedaço de concreto que estava preso no chão.
Mais irado ainda, abriu os braços para brigar com Deus e acabou acertando o nariz de uma senhora.
-- O que há com você, seu lunático! Louco! Devia chamar a polícia!
"Só pode ser isso. Estou louco, este mundo acaba com a razão dos homens. Tudo é tão rápido; queremos tudo muito rápido. Ou será que fazemo-nos assim? Não, não estou louco. Agora não mais. Loucos são os que se deixam levar por esse sistema sem questionar o porquê disso tudo."
-- Vou mudar minhas atitudes, não quero ser o que os outros esperam de mim -- disse em voz alta como se declamasse e firmasse sua decisão.
A partir desse dia, sua vida se modificou, pois agora sim ele era o Dario. Pensativo, calmo, analisando tudo e todos sem criticar apenas se ofuscava tentando entender o ser humano.